domingo, 24 de julho de 2011

SAMBAS ENREDOS ANTIGOS, POLITICAMENTE INCORRETOS CARNAVALESCAMENTE DATADOS?

Por Gustavo Melo, colunista do site Carnavalesco


Muito se fala no politicamente incorreto das marchinhas de carnaval, acusadas de preconceituosas, racistas, homofóbicas... Mas quem nunca se sacudiu com a cabeleira do Zezé, com a Maria Sapatão ou já fez chacota do cabelo da mulata que atire a primeira pedra.

Menos que as deliciosas canções carnavalescas de outrora, que foram cronistas de costumes e hábitos do seu tempo, o samba-enredo algumas vezes teve alguns breves lampejos de tresloucada lucidez quando o assunto era gozar com a própria realidade.

E houve um tempo em que contestar era preciso. Estavam abertas as trincheiras contra os “engalados”, “miscigenações” e “esplendores”, palavras presentes em nove entre dez obras do gênero.

A Era de Ouro dos Enredos

Anos 80. Depois de “vinte anos que alguém comeu” - a ditadura militar que censurava tudo e todos sem um mínimo critério – o país recobrava a consciência depois do traumático período sob o comando dos milicos. Novelas, peças de teatro, imprensa, tudo servia de veículo para botar pra fora a insatisfação após a era da mordaça. Talvez por isso tenhamos vivido nessa época a “Idade do Ouro” dos enredos.

Se não, vejamos. Em 1984, a o narrador-personagem do samba da Mocidade Independente “Mamãe Eu Quero Manaus” assumia com toda a coragem e nenhuma vergonha que o bisavô era traficante e a vovó, o tio, a titia e o papai eram contrabandistas. Difícil de acreditar? O que dizer então da Unidos da Tijuca que sapecou no “Cama, Mesa e Banho de Gato” uma ode à bissexualidade ao fazer todo o Borel cantar “Tem piranha no almoço / tem ‘virado’ no jantar / Pra quem tem fome qualquer prato é caviar”. E tinha o outro, corno manso, cuja patroa “estava com o Ricardão” e a filha “tinha fama de sapatão”. Tudo, claro no maior espírito folião, embebido “no prazer mais prolongado que o banho de gato dá”.

Em 1985, a Caprichosos acendeu uma velinha pro Botafogo pelos seus 16 anos sem título no futebol carioca. Bolo que também seria servido ao Salgueiro, como já me confessou o carnavalesco Luiz Fernando Reis, em “homenagem” aos dez anos da escola sem chegar ao primeiro lugar. Ideia abortada. A estrela ficou solitária nessa...

A São Clemente em 1988, bradou que se “essa moda pega, vai pegar no outro lugar”, num desafio explícito à TV Globo, hoje uma das mandatárias do espetáculo das escolas de samba. Em 1986, a Portela, no seu “Morfeu do Carnaval – A Utopia Brasileira”, chamou o patrão de vacilão. A Vila Isabel mandou todo mundo “pra pura do barril”. Já a Ilha foi menos explícita ao taxar os ricos do Brasil de sonegadores, com os versos “O leão só morde bumbum de pobre / e o rico é que explode / a boca do balão”.

De volta para o futuro...

Mas o que foi que aconteceu? Hoje, parece que vivemos num mundo lindo, onde a maior crítica cabível é o conselho mala de “que temos que usar a consciência” para alguma coisa: parar de poluir o planeta, usar a ciência pro bem e outras dessas modas politicamente corretas. Não gritamos mais, só pedimos com muita educação. Nossos males de agora são outros.

Na era da informação instantânea e da polêmica online, padece quem vai na contramão. Foi o caso da São Clemente que em 2004, no Cordel da Galhofa Nacional de Milton Cunha. A escola foi vítima da lança implacável do politicamente correto. A direção do Congresso não gostou nada de ver a Casa Legislativa ser retratada como latrina em que defecava o Tio Sam. Muito menos o povo de Pelotas que se ofendeu e muito com a ala “Não dou Pelotas para os Viadinhos”. Mais galhofeiro, impossível! Mas as polêmicas serviram de futrica só no pré-carnavalesco. No desfile, as piadas caíram no vazio, já que ninguém dava mais pelotas pra elas.

Ideologia, eu quero uma pra viver

Os governos bancam as escolas, as empresas investem nas agremiações e o povão cai na folia. Tudo assim, lindo, no mundo de Alice. O individualismo venceu, ideologia hoje é palavrão. A ordem é cada por si e salve-se quem puder. Aliás, trecho de um bom samba da São Clemente em 1985, “Quem Casa, Quer Casa”. Pena que não temos mais problemas de habitação no país, todos moram bem e em casas com total infraestrutura. Não fosse isso, quem sabe poderia até rolar uma reedição...

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Voltemos a 2012...

Quem não foi, ou não viu, perdeu. A série de seminários que discutiu o julgamento dos quesitos foi um sucesso. Um manifesto da imprensa carnavalesca em favor de um julgamento com mais critério e transparência. As propostas foram claras e as discussões profundas. Pena que para alguns, a indignação, como diz a música, “é uma mosca sem asas. Não ultrapassa a janela das nossas casas”. Depois não adianta chorar na quarta-feira de cinzas quando suas escolas forem prejudicadas por notas injustas.

Sem Cangalhas

Os mangueirenses já podem comemorar. Na mesa que discutiu o julgamento de alegorias, Cid Carvalho adiantou que a verde-e-rosa virá sem cangalhas para o próximo desfile.

Diversidade nordestina

Nordeste sim. Mas cada um com seu cada um. O que veremos em 2012 serão várias citações à região mais colorida do Brasil no Grupo Especial de 2012. Mas há uma diversidade tão grande de estéticas, histórias e referências que os enredos pouco se confundem. Quem ganha são os compositores, que têm muito material nas mãos. Agora cabe às escolas a escolha da melhor obra. E elas já pipocam por aí.

As Três Irmãs

Está no prelo um delicioso livro de crônicas carnavalescas sobre três escolas que nas últimas décadas desbancaram o reinado das ditas quatro grandes. O jornalista Fábio Fabato ficou encarregado de contar causos da sua verde e branca de Padre Miguel. O pesquisador Alexandre Medeiros dissecou momentos maravilhosos da Rainha de Ramos, Imperatriz Leopoldinense. E o jornalista Alan Diniz delirou em histórias saborosíssimas da azul e branca nilopolitana. O título da obra é “As Três Irmãs”, inspirado na obra do dramaturgo russo Anton Thecov. Agora é torcer para o livro ser publicado o mais rápido possível. O carnaval agradece.

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