terça-feira, 24 de janeiro de 2012

POR ONDE ANDA? O INTÉRPRETE GERA: BOM DE BOLA E BOM DE SAMBA

Gera e Martinho da Vila




No início da década de 70, o pernambucano Geraldo ficou conhecido por atuar como goleiro em equipes nordestinas como Santa Cruz, Sport e CRB. A carreira de jogador foi abreviada após, durante uma dividida, quebrar o maxilar. Durante a cirurgia, o então atleta teve um choque anafilático, que deixou como sequela uma marca no rosto. Quando parou com o futebol, Geraldo formou um grupo de pagode em Recife e passou a ser conhecido como Gera. E foi durante uma das apresentações na capital pernambucana, em 1979, que Martinho da Vila conheceu o trabalho de Gera e o convidou para defender o seu samba concorrente para o carnaval de 1980.

- O Martinho estava no meu show e depois me chamou para gravar o samba 'Sonho de um sonho', que ainda era concorrente para ser o samba da Vila no carnaval de 1980. Eu fiquei honrado, porque era fã do Martinho e muitas músicas dele faziam parte do meu repertório - recorda o intérprete.

Depois da disputa, Gera passou a fazer parte do carro de som da azul e branca do bairro de Noel Rosa, que na época era comandado por Marcos Moran.

Em 1984, além de defender novamente um samba de Martinho da Vila durante as eliminatórias, o cantor passou a ser a primeira voz da escola no disco oficial e na Avenida.

-Eu gravei o disco como intérprete do samba, que, aliás, defendi durante a disputa. E não poderia ter começado melhor: 'Pra tudo se acabar na quarta-feira' é um grande samba, um clássico do carnaval.

Com o passar dos anos, Gera passou a ser conhecido como uma das principais figuras da agremiação. A trilogia dos carnavais da Unidos de Vila Isabel no final da década de 80 não sai da memória do intérprete.

- 'Kizomba, a festa da raça', em 1988, foi o auge. Foi um carnaval marcante, pois era o  Centenário da Abolição da Escravatura. Foi o primeiro título da Vila no carnaval. A escola já tinha apresentado um grande carnaval em 1987, com o enredo 'Raízes', que tinha um sambaço do Martinho. E no ano após o título (1989), a Vila fez outro grande carnaval, onde ganhou mas não levou - afirma.

Após 19 anos de Vila Isabel, Gera recebeu um convite tentador: assumir o posto de intérprete da Portela, uma das agremiações mais tradicionais do carnaval carioca. Para evitar qualquer tipo de desgaste, o cantor preferiu que a madrinha Portela pedisse a permissão à afilhada Vila Isabel.

- Eu pedi que o presidente da Portela na época, Carlos Teixeira Martins, conversasse com o Olício Alves dos Santos, que era presidente da Vila Isabel. A liberação ocorreu sem problemas, então eu fiquei mais tranquilo por não sair de forma abrupta - conta Gera.

A identifação com a escola de Oswaldo Cruz e Madureira foi rápida. E no carnaval de 2000, onde as escolas tinham que apresentar enredos sobre os 500 anos do Brasil, o cantor fez a sua estreia pela Portela defendendo o samba-enredo 'Trabalhadores do Brasil - A época de Getúlio Vargas'. Em 2004, Gera teve uma oportunidade de ouro: cantar o clássico 'Lendas e Mistérios da Amazônia', que foi reeditado pela azul e branco.

- Foi maravilhoso! O samba já fazia parte do meu repertório como intérprete da escola. Era um samba muito conhecido, não só pelos portelenses, mas pelos sambistas em geral, então eu sempre cantava nos ensaios. Mas o rendimento do samba na avenida era algo que preocupava algumas pessoas.  O Zeca Pagodinho, inclusive, antes do desfile, tava preocupado, mas depois veio me parabenizar e dizer que o andamento tava maravilhoso.

Depois do carnaval de 2004, a direção da Portela mudou e Gera saiu do cargo de intérprete da escola. Sem espaço no carnaval carioca, o cantor ficou alguns anos no carnaval de Manaus. Em 2010, após defender o samba de Martinho da Vila durante as eliminatórias, Gera ganhou a oportunidade de retornar à escola que o consagrou, como apoio de Tinga.

- Fiquei muito honrado pelo convite que recebi da direção da Unidos de Vila Isabel e do Tinga.  E a minha reestreia foi defendendo um samba sobre Noel Rosa, que é um dos expoentes do samba.

Pertencente à uma linhagem tradicional de intérpretes, onde a valorização do canto é o que mais importa, Gera dá um recado aos cantores que estão iniciando no mundo do samba.

- Eu tenho conversado com os garotos que surgem aqui na Vila e tenho orientado que eles usem mais o diafragma e não gritem tanto. Sou da escola de Jamelão, Aroldo Melodia e Ney Vianna. Oriento sempre que, além do talento, eles devem buscar a técnica, desenvolver o canto. Além disso, é importante descansar, se alimentar bem e ter cuidados com a voz - aconselha.


Raymondh Júnior 

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